Uma breve contextualização
- EcoMetrologia

- 10 de set. de 2021
- 7 min de leitura
A evolução técnico-científica, mediada pelas Revoluções Industriais, proporcionou à sociedade condições suficientes para ocupar o globo terrestre significativamente. Atualmente, a população mundial atinge cerca de 7 bilhões de indivíduos, distribuídos nas mais diferentes condições climáticas e biogeográficas. Entretanto, o crescimento populacional intensificou o uso de recursos naturais, renováveis e não renováveis, e a produção de resíduos. Naturalmente, os influxos e os efluxos antrópicos alteraram as condições ecossistêmicas, afetando o equilíbrio termodinâmico do planeta (Brondizio et al., 2016; Ellis, 2015; Ellis et al., 2013; Ellis et al., 2013; Ellis, Antill & Kreft, 2012; Ellis, 2011; Ellis et al., 2010; Rodrigues et al., 2008).
Neste sentido, as mudanças climáticas globais possuem forte correlação com a antropização dos ambientes naturais e com o processo de industrialização global. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, 2018) aponta que estes dois fatores são intensificadores do aumento da amplitude térmica global. Segundo a mesma fonte, as alterações geradas por esta variação afetam expressivamente os ciclos biogeoquímicos, perturbando a resiliência planetária (Buschbacher, 2014; Edenhofer et al., 2014; Blanco et al., 2014; Hegerl et al., 2010; Marengo & Valverde, 2007; Weyant et al., 1996).
Complementarmente, Rockstrom et al. (2009) apresentam que a intensificação dos processos industriais e antrópicos são um marco histórico para o planeta Terra. Delanty (2018) e Lewis & Maslin (2015) apontam que o Antropoceno representa uma nova Era Geológica, compreendida como a Era dos Humanos (figura 1). Os motores desta transformação, que se intensificaram com as Revoluções Industriais, de acordo com o mesmo autor, são: as mudanças climáticas, a acidificação dos oceanos, as alterações na camada de ozônio, os incrementos nos ciclos do fósforo e nitrogênio, a disponibilidade de água potável, as mudanças no uso dos solos, a perda de biodiversidade, a poluição química e o incremento do uso e despejo de aerossóis na atmosfera (Brondizio et al., 2016; Steffen et al., 2015; Ellis, 2014; Ellis et al., 2013; Ellis, 2011).
Figura 1: Eras Geológicas – Linha do tempo

Fonte: o autor.
Estes motores, que impulsionaram a mudança geológica, são elementos críticos para manutenção da resiliência planetária. Ao superar os limites estabelecidos para cada um deles, o sistema entra em desequilíbrio termodinâmico, dificultando a ciclagem dos elementos e influenciando diretamente a saúde humana e ambiental (Steffen et al., 2015; Rockstrom et al., 2009). Para tanto, tornou-se imperativo controlar, minimizar e mitigar o incremento destes indicadores, garantindo um ambiente seguro à sobrevivência da humanidade e para atingir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável estabelecidos no âmbito das Nações Unidas (ONU BRASIL, 2020; Ellis, 2015; Defries et al., 2012; Egler, 2012; Marengo, 2007; Folke, Olsson & Norberg, 2005).
É neste caminho que as Ciências Ambientais têm trabalhado. Intuindo manter a resiliência do planeta e a sobrevivência e perpetuação do gênero hominídeo, os esforços convergem para a adequação do uso dos espaços e dos recursos naturais. Ambos os esforços refletem ações que são enquadradas dentro do ordenamento territorial. Deste modo, o desenvolvimento e aplicação de tecnologias e ferramentas que auxiliem neste planejamento fazem-se cada vez mais necessários (Calvin et al., 2019; Wang et al., 2019; Chuai & Feng, 2019; Iwasaka, 2018; Fu et al., 2016; Magliocca et al., 2015; Krey et al., 2014; Ellis, 2004).
Referências Bibliográficas
BLANCO, G. et al. Drivers, Trends and Mitigation. In: EDENHOFER, O. et al. (Eds.). Climate Change 2014: Mitigation of Climate Change: Contribution of Working Group III to the Fifth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change. IPCC, Cambridge University Press, Cambridge, p. 351-412, 2014. Disponível em: http://www.ipcc.ch/pdf/assessment-report/ar5/wg3/ipcc_wg3_ar5_chapter5.pdf.
BRONDIZIO, E. S. et al. Re-conceptualizing the Anthropocene: a call for collaboration. Global Environmental Change, v. 39, p. 318-327, 2016. Doi: https://doi.org/10.1016/j.gloenvcha.2016.02.006.
BUSCHBACHER, R.; A teoria da resiliência e os sistemas sócio-ecológicos: como se preparar para um futuro imprevisível?. Boletim Regional, Urbano e Ambiental IPEA, p. 12-24, 2014. Disponível em: http://repositorio.ipea.gov.br/handle/11058/4678.
CALVIN, K. et al. Characteristics of human-climate feedbacks differ at different radiative forcing levels. Global and Planetary Change, v. 180, p. 126-135, 2019. Doi: https://doi.org/10.1016/j.gloplacha.2019.06.003.
CHUAI, X. & FENG, J.; High resolution carbon emissions simulation and spatial heterogeneity analysis based on big data in Nanjing City, China. Science of the Total Environment, v. 826, p. 828-837, 2019. Doi: https://doi.org/10.1016/j.scitotenv.2019.05.138.
DEFRIES, R. S.; ELLIS, E. C.; CHAPIN III, F. S.; MATSON, P. A.; TURNER II, B. L.; AGRAWAL, A.; CRUTZEN, P. J.; FIELD, C.; GLEICK, P.; KAREIVA, P. M.; LAMBIN, E.; LIVERMAN, D.; OSTROM, E.; SANCHEZ, P. A.; SYVITSKI, J.; Planetary Opportunities: a social contract for global changes science to contribute to a sustainable future. BioScience, v. 62, n. 6, p. 603-606, 2012. Doi: https://doi.org/10.1525/bio.2012.62.6.11.
DELANTY, G.; Os desafios da globalização e a imaginação cosmopolita: as implicações do Antropoceno. Sociedade e Estado, v. 33, n. 02, p. 373-388, 2018. Doi: https://doi.org/10.1590/s0102-699220183302004.
EDENHOFER, O. et al. Technical Summary. In: EDENHOFER, O. et al. (Eds.); Climate change 2014: mitigation of climate change – contribution of Working Group III to the Fifth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change. IPCC, Cambridge, Cambridge University Press, p. 4-30, 2014. Disponível em: https://www.ipcc.ch/site/assets/uploads/2018/02/ipcc_wg3_ar5_summary-for-policymakers.pdf.
EGLER, M.; Gerenciamento integrado de recursos hídricos no Estado do Rio de Janeiro: ensaio de indicador para o estabelecimento da avaliação das relações entre qualidade da água e cobertura vegetal. 2012. Tese (Doutorado em Planejamento Energético) – Programa de Pós-graduação em Planejamento Energético (COPPE), Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. Disponível em: http://www.ppe.ufrj.br/index.php/pt/publicacoes/teses-e-dissertacoes/2012/543-gerenciamento-integrado-de-recursos-hidricos-no-estado-do-rio-janeiro-ensaio-de-indicador-para-o-estabelecimento-da-avaliacao-das-relacoes-entre-qualidade-da-agua-e-cobertura-vegetal.
ELLIS, E. C.; Anthropogenic Taxonomies – A Taxonomy of the Human Biosphere. In.: REED, C. & LISTER N.-M.; Projective Ecologies. Anthro-Ecologies, Hybridity, Harvard University Graduate School of Design, p. 168-182, 2014. Doi: http://dx.doi.org/10.13140/2.1.4524.6240.
ELLIS, E. C.; Anthropogenic transformation of the terrestrial biosphere. Philosophical Transactions of the Royal Society, v. 369, p. 1010-1035, 2011. Doi: https://doi.org/10.1098/rsta.2010.0331.
ELLIS, E. C.; ANTILL, E. C.; KREFT, H.; All Is Not Loss: plant biodiversity in the Anthropocene. Plos One, v. 7, p. 1-9, 2012. Doi: https://doi.org/10.1371/journal.pone.0030535.
ELLIS, E. C.; FULLER, D. Q.; KAPLAN, J. O.; LUTTERS, W. G.; Dating the Anthropocene: towards an empirical global history of human transformation of the terrestrial biosphere. Elementa: Science of the Anthropocene, v. 1, n. 18, p. 1-6, 2013. Doi: https://doi.org/10.12952/journal.elementa.000018.
ELLIS, E. C.; GOLDEWIJK, K. K.; SIEBERT, S.; LIGHTMAN, D.; RAMANKUTTY, N.; Antropogenic transformation of the biomes, 1700 to 2000. Global Ecology and Biogeography, v. 19, p. 589-606, 2010. Doi: https://doi.org/10.1111/j.1466-8238.2010.00540.x.
ELLIS, E. C.; KAPLAN, J. O.; FULLER, D. Q.; VAVRUS, S.; GOLDEWIJK, K. K.; VERBURG, P. H.; Used Planet: a global history. PNAS, v. 110, n. 20, p. 7978-7985, 2013. Doi: https://doi.org/10.1073/pnas.1217241110.
ELLIS, E. C.; Long-term ecological changes in the densely populated rural landscape of China. Ecosystems and Land Use Change, v. 153, p. 303-320, 2004. Doi: http://dx.doi.org/10.1029/153GM23.
ELLIS, E. C.; Too big for nature. In.: MINTER, B. A. & PYNE, S. J.; After Preservation: saving American nature in the age of humans. University of Chicago Press, p. 24-31, 2015. Doi: https://doi.org/10.3138/cjh.ach.51.3.rev43.
FOLKE, C.; HAHN, T.; OLSSON, P.; NORBERG, J.; Adaptive Governance of Social-Ecological Systems. Environmental and Resources, v. 30, p. 441-473, 2005. Doi: https://doi.org/10.1146/annurev.energy.30.050504.144511.
FU, X.; WANG, S.; CHANG, X.; CAI, S.; XING, J.; HAO, J.; Modeling analysis of secondary inorganic aerosol over China: pollution characteristics and meteorological and dust impacts. Nature (Scientific Reports), n. 6, p. 1-7, 2016. Doi: https://doi.org/10.1038/srep35992.
HEGERL, G. C. et al. Good practice guidance paper on detection and attribution related to anthropogenic climate change. In: STOCKER, T. F. et al. Meeting report of the Intergovernmental Panel on Climate Change: expert meeting on detection and attribution of anthropogenic climate change. IPCC – Working Group I and Technical Support Unit, University of Bern, Switzerland, p. 1-9, 2010. Disponível em: https://archive.ipcc.ch/pdf/supporting-material/ipcc_good_practice_guidance_paper_anthropogenic.pdf.
IWASAKA, F. Y.; Políticas públicas e economia circular: levantamento internacional e avaliação da Política Nacional de Resíduos Sólidos. 2018. Dissertação (mestrado em Engenharia de Produção) – Escola de Engenharia de São Carlos, Universidade de São Paulo, São Carlos. Disponível em: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/18/18156/tde-08102018-110158/pt-br.php.
KREY, V.; MASERA, O.; BLANFORD, G.; BRUCKNER, T.; COOKE, R.; FISHER-VANDEN, K.; HABERL, H.; HERTWICH, E.; KRIEGLER, E.; MUELLER, D.; PALTSEV, S.; PRICE, L.; SCHLOMER, S.; URGE-VORSATZ, D.; VUUREN, D. van; ZWICKEL, T.; Annex II: Metrics & methodology. In: EDENHOFER, O.; PICHS-MADRUGA, R.; SOKONA, Y.; FARAHANI, E.; KADNER, S.; SEYBOTH, K.; ADLER, A.; BAUM, I.; BRUNNER, S.; EICKEMEIER, P.; KRIEMANN, B.; SAVOLAINEN, J. SCHLÖMER, S. STECHOW, C. von; ZWICKEL, T.; MINX, J. C. (Eds.); Climate change 2014: mitigation of climate change – contribution of Working Group III to the Fifth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change. IPCC, Cambridge, Cambridge University Press, p. 1281-1328, 2014. Disponível em: http://pure.iiasa.ac.at/11109.
LEWIS, S. L. & MASLIN, M. A.; A transparent framework for defining the Anthropocene Epoch. The Anthropocene Review, v. 02, n. 02, p. 128-146, 2015. Doi: https://doi.org/10.1177%2F2053019615588792.
MAGLIOCCA, N. R.; RUDEL, T. K.; VERBURG, P. H.; McCONNELL, W. J.; MERTZ, O.; GERSTNER, K.; HEINIMANN, A.; ELLIS, E. C.; Synthesis in Land Change Science: methodological patterns, challenges and guidelines. Springer, v. 15, p. 211-226, 2015. Doi: http://dx.doi.org/10.1007/s10113-014-0626-8.
MARENGO, J. A. & VALVERDE, M. C.; Caracterização do clima no século XX e cenário de mudanças clima para o Brasil no século XXI usando o modelo do IPCC-AR4. Multiciência, v. 8, p. 5-28, 2007. Disponível em: https://www.researchgate.net/profile/Jose-Marengo-2/publication/239557718_Caracterizacao_do_clima_no_Seculo_XX_e_Cenario_de_Mudancas_de_clima_para_o_Brasil_no_Seculo_XXI_usando_os_modelos_do_IPCC-AR4/links/0deec528e7d02d40d6000000/Caracterizacao-do-clima-no-Seculo-XX-e-Cenario-de-Mudancas-de-clima-para-o-Brasil-no-Seculo-XXI-usando-os-modelos-do-IPCC-AR4.pdf.
MARENGO, J. A.; Os modelos globais e cenários climáticos do IPCC (Parte II). In: MARENGO, J. A.; Mudanças climáticas globais e seus efeitos sobre a diversidade: caracterização do clima atual e definição das alterações climáticas para o território brasileiro ao longo do século XXI. Brasília, p. 83-143, 2007. Disponível em: https://livroaberto.ibict.br/bitstream/1/986/1/mudan%C3%A7as%20clim%C3%A1ticas%20globais%20e%20seus%20efeitos%20.....pdf.
NAÇÕES UNIDAS BRASIL (ONU BRASIL); Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/sdgs.
ROCKSTRÖM, J. et al. A Safe operating space for humanity. Nature, v. 461, p. 472-475, 2009. Doi: https://doi.org/10.1038/461472a.
RODRIGUES, B. A. et al. A strategy for reviewing knowledge on the links between wild nature and human wellbeing. In: RODRIGUES, B. A. et al. The economics of biodiversity and ecosystem. Cambridge: Scoping the Science, p. 27-45, 2008. Disponível em: https://edepot.wur.nl/8959.
STEFFEN, W.; RICHARDSON, K.; ROCKSTRÖM, J.; CORNELL, S. E.; FETZER, I.; BENNETT, E. M.; BIGGS, R.; CARPENTER, S. R.; VRIES, W. de; WIT, C. A. de; FOLKE, C.; GERTEN, D.; HEINKE, J.; MACE, G. M.; PERSSON, L. M.; RAMANATHAN, V.; REYERS, B.; SORLIN, S.; Planetary Boundaries: guiding human development on a changing planet. Science, v. 347, n. 6223, p. 1-12, 2015. Doi: https://doi.org/10.1126/science.1259855.
WANG, S.; YANG, K.; YUAN, D.; YU, K.; SU, Y.; Temporal-spatial changes about the landscape pattern of water system and their relationship with food and energy in a mega city in China. Ecological Modelling, n. 401, p. 75-84, 2019. Doi: https://doi.org/10.1016/j.ecolmodel.2019.02.010.
WEYANT, J. et al. First results from integrated assessment models. In: BRUCE, J. P.; LEE, H.; HAITES, E. F.; Climate change 1995: economic and social dimensions of climate change. IPCC, Cambridge University Press, p. 382-391, 1996. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/221678860_Integrated_Assessment_of_Climate_Change_An_Overview_and_Comparison_of_Approaches_and_Results?enrichId=rgreq-983241eb-7401-4de7-a525-351b524cc8c3&enrichSource=Y292ZXJQYWdlOzIyMTY3ODg2MDtBUzoyNDg3ODQ2NzIyNjAwOTZAMTQzNjMyNjI5NjI5MA%3D%3D&el=1_x_2.




Comentários